Exposição:

Quintos do Rei

A exposição Quinto do Rei demonstra o processo de fundição e cobrança das taxas sobre o ouro encontrado no território do Brasil.

A casa de intendência e fundição

O estabelecimento das casas de fundição em Minas Gerais foi decretado pelo rei D. João VI (lei de 11/02/1719). Só começaram a ser construídas quatro delas em 1724, em Vila Rica, Sabará, São João del Rey e Vila do Príncipe, e só funcionaram a partir de 1º de fevereiro de 1725. 

Eram compostas de escritórios onde o ouro em pó era recebido e guardado, de uma sala para a fundição das barras e de um laboratório para os testes. Na sala de fundição, havia três fornos de forja a fole duplo, um forno de mufla de ferro para os testes e algumas caixas para a amalgamação. 

Procedimento de fundição do ouro 


O ouro trazido era transformado em barras, separadamente. O fundidor, depois de ter recebido a parte a ser fundida, deduzido o quinto, escolhia um cadinho com tampa, de capacidade conveniente, no qual depositava o pó de ouro e o punha no fogo, cobrindo-o com carvão vegetal. Uma vez incandescente o cadinho, soprava com forte corrente de ar, para fundir o ouro e, retirada a tampa, derramava o sublimado corrosivo, pouco a pouco, a fim de executar a apuração do metal.

Retirava em seguida, com uma cureta, as matérias impuras que boiassem na superfície e interrompia a operação quando o banho ficava parecido com um espelho brilhante, de cor verde. Retirava o cadinho do fogo e derramava o líquido em uma fôrma; a barra, suficientemente resfriada, era mergulhada na água e, com um martelo, curvava uma extremidade para avaliar sua maleabilidade. Se não houvesse rachaduras, considerava boa a fundição; caso contrário, recomeçava com uma dose mais forte de sublimado, até que o metal ficasse perfeitamente maleável. A barra obtida tinha uma cor cinza devido ao mercúrio, que desapareceria passando-a sobre fogo forte. Essas operações duravam de 15 a 25 minutos. 

Por esse procedimento, havia uma perda considerável do ouro, sobretudo quando os fundidores faziam o trabalho rapidamente, como acontecia com frequência. O ouro proveniente dos quintos era guardado em um cofre especial e fundido semestral ou anualmente. 

Quando uma pessoa trazia ouro para fundir, anotava-se seu nome em um registro, pesava-se o pó em sua presença e se deduzia o quinto; o resto era fundido e vazado (provavelmente com uma rilheira) em barra, qualquer que fosse a quantidade. A barra passava em seguida pelas mãos do ensaiador, que determinava o título e imprimia, de um lado as armas reais, o número de ordem, o ano, a marca da casa de fundição, o título e o peso da barra, e as palavras por ensaio ou por toque, segundo o título tivesse sido determinado pelo ensaio ou pelo toque. Do outro lado, imprimia-se as armas do Brasil. Como o título do ouro das principais minas era muito conhecido, com frequência se contentava em determiná-lo pelo toque. 

O ouro brasileiro no mundo 


No século XVIII, a descoberta de ouro em terras brasileiras apareceu como uma alternativa econômica que poderia salvar os combalidos cofres da Coroa Portuguesa. Os gastos realizados com o processo de restauração da monarquia nacional (que marcou o fim da União Ibérica), a perda de posses coloniais espalhadas pela Ásia e as oscilações do preço do açúcar no mercado europeu compunham uma série de problemas enfrentados pelo Estado lusitano naquela época. 

Contudo, a extração de toneladas e mais toneladas de ouro do território brasileiro não conseguiu viabilizar uma acumulação de capitais que pudesse novamente organizar a economia metropolitana. Na verdade, boa parte dos metais e pedras preciosas extraídas do Brasil serviu para saldar uma exorbitante quantidade de dívidas que o governo português contraiu com as grandes potências econômicas europeias, principalmente a Inglaterra. 

De fato, a dependência econômica de Portugal em relação aos ingleses marca um período histórico da economia europeia. Enquanto os lusitanos perdiam o antigo posto de nação rica e desenvolvida, galgado entre os séculos XVI e XVII, a Inglaterra alcançava as condições que a transformaria na maior potência econômica do mundo entre os séculos XVIII e XIX. Para entendermos estas situações distintas, podemos tomar a assinatura do Tratado de Methuen como um interessante exemplo histórico. 

Em 1703, esse acordo firmado entre ingleses e lusitanos estabelecia a compra dos tecidos ingleses por parte de Portugal, enquanto a Inglaterra se comprometia a adquirir a produção vinícola dos lusitanos. Com isso, a especulação sobre a garantia de compra dos ingleses sobre o vinho de Portugal ampliou enormemente o número de terras cultiváveis destinadas ao plantio de uva. Por conseguinte, a demanda da economia lusitana por produtos importados aumentou bastante. 

Conforme apontado por vários pesquisadores interessados no assunto, a Coroa portuguesa conseguiu montar um enorme império mercantil, mas não buscou meios eficientes e sistemáticos para dinamizar sua economia interna. As expressivas quantias obtidas com a atividade colonial eram revertidas na forma de gastos que somente mantinham o elevado padrão de vida dos nobres e membros da família real portuguesa. 

A assinatura do Tratado de Methuen não pode ser considerada como a origem única de todos os males que atingiram a economia de Portugal. No entanto, ele ressalta bem as condições políticas e econômicas distintas de cada uma das nações envolvidas na situação. Com o passar do tempo, a dependência econômica portuguesa se agravou e o ouro encontrado em terras brasileiras serviu para tapar o grande déficit que dominava as finanças de Portugal. 

Referências
Bibliográficas

FERRAND, Paul. O Ouro em Minas Gerais. Belo Horizonte: Sistema Estadual de Planejamento; Fundação João Pinheiro, Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1998. 366 p. 

SOUZA, Rainer. Tratado de Methuen. 

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